Projeto “40 anos, 40 artistas” | Arte, Revolução e Ciência: 40 anos de Silvestre Pestana

Silvestre Pestana, 2003 “Águas vivas” Instalação com Neons Grande Prémio na XII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada de 16 de agosto a 21 de setembro 2003

 

A Arte, em Silvestre Pestana (n.1949), começa num intervalo revolucionário e anti-sistémico entre a performance e o vídeo. A fotografia também faz parte do seu processo mas, sobretudo, no contexto das vanguardas e contaminações imagéticas e gráficas que vivencia entre as décadas de 1960 e 1970, o seu processo apoia-se na Arte como modo de intervenção inevitável a partir de uma geografia e de um tempo político que o indagaram interiormente a não ser conivente com o estado de coisas que a sua geração vivia. Era a ilha, era a ditadura, era a Guerra Colonial, era a inexistência de Liberdade e de espaço para a introdução do novo, do que se via e sentia nas alvíssaras de uma Europa que reclamava direitos e igualdades. Silvestre Pestana é um ser inquieto. Irreverente e inquieto. Não se resigna e nunca se resignou e para si, a criação artística foi sempre desvinculada da mercantilização. Arte pela Arte, mas Arte que, necessariamente, se apoia, enquanto pensamento, no cruzamento disciplinar, nomeadamente com a tecnologia e com a ciência. É por isso que o que Silvestre Pestana nos propõe, ao longo de toda a sua carreira, é ímpar. Em 2016 o Museu de Serralves dedicou-lhe uma exposição retrospetiva individual. Homenageou-se essa singularidade. Agora, a caminho dos 70 anos de idade e sendo um dos poucos artistas que cumpre o pleno de participação em 20 edições da Bienal Internacional de Arte de Cerveira (BIAC), encerramos com ele esta série de textos do projeto “40 anos, 40 artistas”, dizendo-lhe que contamos com ele no futuro, um futuro que ele sempre viu primeiro.

Silvestre Pestana é natural do Funchal. Licenciou-se em Artes Gráficas e Design pela Escola Superior de Belas Artes do Porto (atual FBAUP); é mestre em Ensino de Arte e Design pela De Montford University, em Leicester, Reino Unido; foi professor da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra; estudou Televisão e Música Eletrónica na Universidade de Estocolmo. O seu percurso académico reflete, também, a busca por um conjunto multifacetado de ferramentas que lhe permitissem ocupar um espaço em que a ficção que nos é dada a ver, sofresse um questionamento através de uma produção artística de meta-linguagens, catalisadora de símbolos e de um código semiótico focado no Ser Humano, no seu corpo e cérebro como construtores de supra-realidades de ação poética. Silvestre Pestana participa nas BIAC desde 1978. Está connosco  desde o primeiro dia e recordamos, das primeiras edições, as suas arrojadas performances, que iam para além dos limites do moralmente permitido. Na série de performances Bio-virtual, que marcam quase toda a década de 1980, algumas tendências que se refletirão no porvir: a presença da palavra, dos elementos luz e a estreita relação com o vídeo que colocará este artista como um dos percursores da arte em vídeo em Portugal. Silvestre Pestana explorou “as possibilidades oferecidas pelos registos fotográficos e videográficos enquanto veículos privilegiados do exercício de atos em liberdade do poeta e artista visual. Esta última situação, para mim, foi muito importante, visto estarmos na primeira década após a Revolução dos Cravos. Naquela altura, ainda era pertinente refletir sobre a recusada amnistia militar aos milhares de jovens refratários e aos desertores da Guerra Colonial, já que o serviço militar obrigatório em Portugal só terminou em 1992.”, citando o artista num texto de 2015 intitulado “Três obras” e disponível online[1].

Além de um vasto espólio documental que faz memória das diversas participações de Silvestre Pestana nas BIAC, a coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira integra uma das peças da série Águas Vivas, que foi Grande Prémio na XII BIAC, realizada entre 16 de agosto e 21 de setembro de 2003. O interesse de Silvestre Pestana pelo néon enquanto material escultórico advém, na realidade, do processo de trabalho anterior e, nomeadamente, das intervenções incluídas nas “Ações – Poemas  – Rua” e na já mencionada série “Bio-virtual”, que consistia em ações corpóreas com a participação de barras de luz fluorescente. Com um olhar atento no entusiasmo da adesão de Portugal à C.E.E., o artista revisita um conjunto de conceitos animados pela possibilidade de desenvolvimento científico que esta mudança da condição de isolamento anterior poderia trazer. O néon surge na materialização deste projeto, deste processo de pensamento em que Arte, Revolução e Ciência de ligam. Em 2002 a Galeria Alvarez acolhe a primeira apresentação pública de Águas Vivas, uma instalação que “remete para uma valorização intencional da cultura atlântica e insular, que reforcei de uma forma dupla: primeiro, ao atribuir o nome de águas vivas ao conjunto de peças escultóricas realizadas em néon linear azul; depois, ao dedicar a exposição ao simbólico “das vagas de Machim”, assumindo a importância da lenda que se refere à chegada de um casal aventureiro e amoroso ao porto de Machim, porto este mais tarde batizado de Machico, na Ilha da Madeira.”, voltando a citar o artista. No seguimento do grande prémio de 2003, Silvestre Pestana é desafiado a pensar uma peça para o espaço público de Vila Nova de Cerveira. “Rio: água e sangue” (2003)[2] ocupou, inicialmente, um lago no espaço onde atualmente se localiza Tribunal, o que levou à sua retirada. Pela pertinência da mesma, a sua reposição encontra-se em estudo, pois que urge valorizar um artista que em muito contribui para que as BIAC continuem a ocupar um espaço de vanguarda e de valorização dos grandes autores da cena artística contemporânea.

Sobre Silvestre Pestana e Vila Nova de Cerveira, poder-se-ia ainda referir os projetos relacionados com a Second Life e a Galeria Pública para as Artes Digitais, que tornam claro e evidente a estreita relação que o artista sempre manteve com a tecnologia e com as possibilidades do computador e da sua evolução na transformação da cena artística e, sobretudo, nas possibilidades que esta coloca de se questionar o tempo e o espaço do contemporâneo.

 

[1]     https://po-ex.net/taxonomia/transtextualidades/metatextualidades-autografas/silvestre-pestana-tres-obras/#more-4672 em 13 de dezembro de 2018.

[2]     Catalogada em CAEIRO, Mário – Arte na Cidade. História Contemporânea. Lisboa: Círculo de Leitores, 2014. Página 192.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

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