Ainda a Coleção e os seus artistas | Objetos e Pinturas de Rui Anahory

A escultura é a essência do trabalho de Rui Anahory (n.1946), expandindo-se por materiais tão diversos como a pedra, a madeira, o bronze, o ferro ou as cerâmicas, com soluções plásticas que agregam a pintura mas também a luz e que mergulham nos conceptualismos que valorizam a experimentação, não desvirtuando a afirmação de uma forma clássica de fazer, resultante da sua formação académica. Natural de Vila Nova de Gaia, Rui Anahory frequentou entre 1966/68 a Escola Superior de Belas-Artes do Porto (atual FBAUP), tendo interrompido os estudos por três anos para cumprir o serviço militar obrigatório. No regresso, até voltar a ingressar na ESBAP em 1975, trabalhou em artes gráficas e em áreas criativas ligadas ao têxtil. Em 1979 conclui o curso de escultura tendo ministrado ateliers e estabelecido outras colaborações, até se tornar docente da escola em 1995, função que exerceu até 2007.

Evidência dessa dualidade no trabalho em escultura são as obras que desenvolveu em 1996, no âmbito do Simpósio de  Escultura em Granito de Vila Nova de Cerveira, organizado à data pela Associação Projeto – Núcleo de Desenvolvimento Cultural. Objeto I e Objeto II são díspares em termos de linguagem, ainda que tenham a verticalidade como marca. Objeto I combina a forma de uma espécie de cabeça sobre aparente plinto, numa ironia à tradicional escultura de vulto redondo e Objeto II apresenta um baixo relevo com motivos vegetalistas, estabelecendo uma ligação com as evidências do desenho e da pintura de Rui Anahory a que recorre de continuamente e não apenas como complemento, mas num exercício procura plástica e de contacto com a natureza e com o pensamento através da Arte. Objeto I e Objeto II continuam a fazer parte do museu de arte contemporânea ao ar livre que Vila Nova de Cerveira oferece a quem a habita e visita.

Rui Anahory tem um extenso currículo de exposições individuais e coletivas, em Portugal e além fronteiras, bem como encontramos obra sua em espaço público em vários locais. No seu percurso interessa ainda destacar uma intensa atividade como cenógrafo tendo sido, na década de 1980, um dos fundadores da Companhia de Teatro de Braga. A sua ligação à bienal mais antiga da Península Ibérica remonta a 1982 e à terceira edição do evento, realizado entre 24 de julho e 31 de agosto. Dessa participação a coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira integra na sua coleção dois guaches sobre papel (60x73cm), intitulados como Pintura II e datados de 1981.

Incapaz de preferir a escultura ou a pintura, Rui Anahory, a assinalar 39 anos de atividade artística (considerando como sua primeira investida, curiosamente, uma performance em 1980 que marcou a abertura do Festival Internacional de Teatro Ibérico (FITEI), no Porto) destaca-se por uma produção de grande versatilidade, com uma escolha, por vezes, insólita de materiais e de soluções inesperadas, até acidentais, de resolução formal da obra de arte. Numa entrevista em 2013 a propósito de uma exposição na Casa Museu Abel Salazar, em Matosinhos, o artista destaca, precisamente, a sua atenção aos acidentes durante o processo de trabalho e à forma como os integra no resultado final. Destaca-se, por fim, uma paleta dentro do quadro da pop, pouco aberta e que acentua o caráter cenográfico, por vezes melancólico, dos seus trabalhos, carregados de uma semiótica interior particular.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

X